Blendle: como funciona e monetiza o iTunes do jornalismo

Poucas coisas me chamaram mais atenção no assunto “sobrevivência no Jornalismo” do que o caso da startup Blendle. Isso porque ninguém sabe como ganhar dinheiro com produção de notícias na internet. E quando aparece alguém na linha de frente que experimenta novos modelos de negócios, a gente agarra qualquer oportunidade de saber mais.

Estive no 12 Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji em Sampa e uma das convidadas de peso foi Jessica Best, a head de conteúdos editoriais da Blendle. E ela falou sobre como funciona a empresa, monetização e perspectivas do futuro. Vamos lá… do começo.

startup blendle: jessica best

crédito: Verônica Machado

Startup Blendle… o quê?

A Blendle é uma plataforma on-line de notícias que seleciona diversos artigos de jornais por meio de uma curadoria feita por editores e oferece tudo isso de forma personalizada ao usuário. São 20 jornalistas que levantam às 4h todos os dias para ler as notícias e decidir o que é relevante. Em resumo: separa o que há de qualidade de acordo com o perfil do leitor.

Funciona bem até agora — expandiram o serviço para Alemanha e Estados Unidos.  A missão da startup, segundo Jessica, é ajudar os usuários a descobrir Jornalismo de qualidade.

A equipe total tem 80 funcionários: 50 desenvolvedores, 20 jornalistas e outros 10 de apoio. Eles recebem 8 mil novos artigos diariamente para fazer essa avaliação.

Como a ideia surgiu?

Marten Blankesteijn e Alexander Klöpping são dois jornalistas holandeses que comentavam a fase terrível do jornal com a queda receita de publicidade a força da internet, o que torna o Jornalismo de qualidade mais desafiador. Nada diferente de nós até agora, né? Eles perceberam que as músicas também passavam por essa transformação comercial, mas o streaming se apresentou como uma alternativa para jovens ainda pagarem por canções no Spotify ou no iTunes. Por que não tentar com notícias? E foi a ideia que os moços tiveram. Foram os primeiros a bater na porta das editoras e propor o que imaginaram. Todas disseram “não, sinto muito”.

Mas como sempre acontece com gente que realiza grandes coisas, Marten e Alexander não desistiram. Criaram um protótipo do invento, ouviram feedbacks, aprimoraram e convenceram as pessoas de que a empreitada poderia funcionar. E foi o que aconteceu em 2014, quando lançaram a startup Blendle — com o apoio, inclusive, daqueles que negaram a proposta lá no início.

Com o sucesso, receberam quase 4 milhões de dólares no investimento de empresas. Uou.

startup blendle: site

Printscreen do site da Blendle

Como monetizam?

A ideia é monetizar com um modelo de micropagamentos. O leitor tem uma carteira on-line e paga por artigo que lê uma média de $0.33. Detalhe: se ele não gostar da leitura, recebe o dinheiro de volta. Para os jornais, vão 70% da receita e os 30% ficam para a Blendle. A organização Reports Online representa comercialmente alguns freelancers para os pagamentos. O dinheiro sempre vai para uma instituição ou empresa, não fazem essa distribuição para pessoas físicas ou jornalistas independentes.

Eles têm um segundo modelo de negócios: o de assinatura, o que também tem funcionado muito bem, mesmo ainda em teste. É o Blendle Premium com uma seleção mais personalizada de matérias por meio de newsletter.

São mais de 1 milhão de usuários.

Como funciona a curadoria de artigos?

“Precisamos conhecer bem as histórias e o comportamento dos usuários”, diz Jessica. Eles começam com a seleção dos artigos pelos editores. Há um filtro com 40 variáveis que é aplicado sobre esse conteúdo, como complexidade, autores, relevância e assunto. “Não nos interessa o que é mais popular, e sim o que você quer ler”, aponta. A startup Blendle usa um algoritmo para entender a importância de alguns desses tópicos para o usuário. Começam de forma aleatória com um novo leitor, fazem suposições do que é de interesse da pessoa e depois passam a monitorar o comportamento de leitura.

Mas você não pode viver em uma bolha de seus interesses e não ser desafiado a conhecer algo novo, certo? Por isso, eles também oferecem um conteúdo de “Humm… Acho que você também leria isso.” E a cereja do bolo é acrescentar o Master Read, que são leituras cruciais selecionadas pelos editores.

startup blendle: congresso abraji

crédito: Verônica Machado

O que aprenderam com a experiência?

Why not What – Eles priorizam o porquê e não o quê. As pessoas pagam por análises mais profundas das notícias, opiniões bem formatadas, investigação. Aquele papo superficial ou o famoso lead batido não funcionam mais. Para mim, Verônica do J 3.0, foi a mensagem mais importante.

Honestidade – As pessoas não abusam da possibilidade de reembolso do dinheiro. Sabe aquele pensamento de “Uhuul… vou ler todas as matérias e pedir meu dinheiro de volta todas as vezes para não precisar pagar nada nunca.”? Então, acontece, mas é muito raro e vale a pena correr o risco.

O poder da assinatura – Os usuários leem mais quando optam pelo modelo de assinatura. O número chega de duas a três vezes mais do que na opção de micropagamentos.

Quais os desafios?

Yonger people – Atrair o público jovem e convencê-los a pagar por notícias. Urggg… Difícil, hein?! “Complicado e precisamos de uma educação cultural”, comenta Jessica.

Amiguinhos – Convencer grandes jornais de que são amigos e não inimigos. Fazer entender “Olha, vamos levar sua marca para um novo público”. Eles ainda são resistentes.

Movimento – Oferecer conteúdo dinâmico. Eles ainda não trabalham com vídeo, por exemplo. E isso tem que mudar logo, claro.

Terra de Trump – Estabelecer a empresa no mercado dos Estados Unidos. Eles ainda estão na fase beta por lá.

Futuro

Certamente ainda há muito o que fazer e a startup Blendle está no início, sem planos para chegar ao Brasil. Por fim, Jessica falou como se sentiu ao deixar a redação tradicional para trabalhar em startup. Olha só:

“Foi muito legal e é meio assustador. Precisamos nos provar todos os dias, sabe?! Saí da redação do jornal porque eu não me sentia mais bem. Era a coisa dos números pelos números, não estávamos fazendo algo original. E agora sinto que estamos fazendo algo pelo Jornalismo e pelas pessoas”.

E você? Como tem tornado seu trabalho de jornalista mais altruísta e relevante?

Até breve.

V.

 

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