O que aprendi sobre a cobertura do Catraca Livre na tragédia da Chapecoense

Neste artigo, vou falar sobre as lições que tirei para a profissão de jornalista com a cobertura do Catraca Livre sobre a tragédia da Chapecoense.

Sou desligada de TV aberta, não assisto. Fui checar as mensagens no celular e me deparei com um “vocês viram o que aconteceu?” Corri para os principais portais de notícia. Fiquei arrasada com o que li. Assim foi o comportamento de outras milhares de pessoas.

Um avião com 81 pessoas caiu. O time de atletas da Chapecoense, equipe, tripulação e jornalistas seguiam para Colômbia quando o acidente aconteceu. 71 morreram. Há tristeza, comoção, respeito. Poderia ser eu, você, nossos filhos. E, no curso natural, todos exercemos a empatia. Quase todos.

Em pouco tempo, outro reboliço na internet. O público ficou revoltado com a falta de sensibilidade do Catraca Livre ao tentar produzir conteúdo sobre o acidente. Eram títulos como “Veja as últimas selfies dos jogadores”, “Assista ao vídeo de pessoas aterrorizadas em um avião” e até “Como perder o medo de voar”. Os posts foram apagados. A reação foi imediata: críticas, perdas de parcerias e 178 mil descurtidas na fanpage.

chapecoense

Disso tudo, tenho duas boas notícias.

A primeira é que esse acontecimento descortinou de vez a decadência da qualidade do Jornalismo. E é ótimo! Será que agora vamos sentar, rever os problemas da profissão e repensar nossa função como jornalistas? Acabamos de sair de uma trágica-cômica cobertura das eleições nos Estados Unidos. Não há mais espaço para errar tão feio.

Na busca por cliques para abrilhantar os bolsos dos anunciantes, o conteúdo é superficial, irrelevante. Sinto cheiro podre de desespero. Você, não? Estamos perdidos sobre como nos comportar na internet. Não há quem saiba, inclusive. Mas descumprimos o princípio básico da profissão: servir seres humanos.

Imagine estar em um velório onde há muita dor e saudade. Você mostra para a viúva um vídeo de pessoas desesperadas em um voo ou dá o passo a passo para perder o receio de voar? É ofensivo. Em um momento de dor, você presta solidariedade, abraça e principalmente silencia. No caso do Jornalismo, leva informações da causa da morte — e por que não também se compadece.

O que mais me tocou nesse caso da Chapecoense foi imaginar que eu poderia ter cometido o mesmo erro. Eu me vi lá, escrevendo todos aqueles posts e títulos do Catraca. Eu me vi agonizando no mercado de Jornalismo. Eu me vi testando tudo para sobreviver. Foi como olhar no espelho. E vou além, sem hipocrisia: senti um alívio de ter acontecido com o outro site de notícias. Mas poderia ter sido o meu, sabe? Poderia ter sido o seu.

Por isso, vamos tirar lições antes que nos afundemos mais nessa fossa:

  • O Jornalismo é feito de pessoas para pessoas. Chega de se comportar como máquina fria de conteúdo.
  • Fazer um Jornalismo péssimo não vai fazer a gente sobreviver no mercado. O problema é sistemático e não seremos heróis na história.
  • A imparcialidade é uma ilusão. Vamos fazer um Jornalismo mais humano, que toque pessoas, que passe uma mensagem e até levante uma bandeira.
  • O contexto é mais importante do que soluções prontas e listas bobas.
  • Não adianta o conteúdo ser bom se for publicado no momento errado.
  • Errou? Peça desculpas com humildade. Não tente justificar o que não tem explicação.

Chapecoense: lição e saudade

A segunda boa notícia é que temos um público reativo, crítico e que não vai deixar passar injustiças ou trabalhos incompetentes. São vigilantes da boa informação. Se você vacilar, amigo, está fora do jogo sem piedade. Apesar dos 7 milhões de seguidores do Catraca Livre, quase 200 mil viraram as costas par o portal. Esse número precisa ser considerado.

Representa uma revolução informativa que chega forte e modifica a maneira como as pessoas se relacionam com as notícias. Eis o nosso verdadeiro patrão: o público que se impõe. Fico emocionada em presenciar um momento que simboliza uma ruptura de paradigmas, a transição para o pós-modernismo, uma nova era de Jornalismo.

Uma pena que sempre temos que chegar ao fundo do poço para começar uma transformação. Estou em luto pelos irmãos que nos deixaram na tragédia da Chapecoense e digo adeus aos resquícios de Jornalismo barato. Aprendi muito.

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