O efeito psicológico da vírgula. Você sofre?

Lembro bem do dia em que liguei para pedir carona depois de um dia difícil na redação. Chovia muito e era a hora em que meu pai saía do trabalho. Eu precisava respirar em outro lugar. Mesmo em caminho contrário, ele me fez essa gentileza. Não moramos na mesma casa desde os meus quatro anos e isso talvez o tenha tornado meu melhor amigo — ao ponto de conversarmos sobre qualquer coisa.

Fugi dos pingos fortes ao sentar ao lado dele no carro. Foi uma longa estrada até chegar em casa e tínhamos tempo para conversar, longe das constantes distrações tecnológicas. Eu era estagiária e estava mal, precisava desabafar. O editor tinha me chamado atenção por um erro de português. Não era cachorro com X, provavelmente ortografia ou concordância, não lembro. As críticas acabavam comigo. Era quase um pedido de: “pode me chicotear que eu mereço”. Tristeza resume.

Explicava ao meu pai o tanto que me sentia incompetente, burra, sem leitura, péssima jornalista. O problema não estava com o editor, estava em mim. Eu tinha que ser perfeita o tempo todo e essa auto-cobrança me matava.

Conversamos sobre a importância de errar, de admitir o erro e de ter humildade sempre como melhor saída. Ainda assim, era difícil para mim. Quase escorria uma lagrimazinha no meu rosto a cada vírgula errada nas matérias.

Anos depois, fui parar na terapia para resolver esse e, claro, outros problemas obscuros. Descobri que  isso talvez tenha começado aos 10 anos: quando minha mãe me olhou furiosa ao ver a nota 7 em Geografia no meu boletim recheado de 9,5. A partir daí, veio o medo da imperfeição, de desagradar as pessoas, de ser insuficiente, incapaz.

Como uma coisa tão boba teve consequências dolorosas na vida adulta? Percebi isso no divã e relaxei. Prometi que seria diferente e que, principalmente, se eu errasse… bola pra frente. Mas essa história antiga me veio como um raio nesta semana quando me peguei na tal situação de tortura de novo.

Enviei um e-mail para as pessoas da lista do Vida Fora da Redação e, lá, tinha uma maldita vírgula no lugar errado. Pronto! Mais de 300 jornalistas apontado o dedo na tela e fazendo cara de desprezo, imaginei. Fiz beicinho, quis desistir de tudo, até que lembrei daquele dia chuvoso e de como voltei a parecer uma menina com medo.

Senti falta das palavras aconchegantes do meu pai: “Você se cobra demais por bobagens. Vai ficar tudo bem. Vamos tomar sorvete porque cura quase tudo”.

Uma pena: nem sempre há sorvete ou você por perto na vida adulta, pai. O exagerado medo de errar é cruel!

Seria esse o sofrimento de outros jornalistas? Se sim, quero abrigá-los em uma carona e aconselhá-los carinhosamente de que aquela angústia não é perfeccionismo, é idiotice. Vai passar. E, por que não, repetir a mim mesma que notas 7 na escola e vírgulas erradas podem ser interessantes ao descortinarem toda minha humanidade, imperfeição e capacidade de seguir em frente.

Faz sentido?

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Beijo. V.